Conversas com arquitectos

11 Rui Braz Afonso


ISBN 978-989-98073-5-8

Edição CIAMH, FAUP

Ano 2020

Número de Páginas 120

Dimensão 14,5x22cm

Onde Comprar

AEFAUP

www.ciamh.up.pt

Sobre a coleção



“Trata-se de uma colecção de entrevistas feitas pelo arquitecto Nuno Lacerda Lopes. São conversas entre arquitectos da Escola do Porto onde se procura compreender o processo de construção de um ideal de arquitectura, de profissão, de sociedade e de escola, tendo por base uma reflexão pessoal e aberta e até esclarecer as inquietações teóricas e práticas bem como as circunstâncias que fundamentam a arquitectura portuguesa dos dias de hoje.”

Excerto - primeira pergunta da entrevista a Rui Braz Afonso



Vamos conversar com Rui Braz Afonso, nascido na Covilhã, Tortosendo, economista, professor Doutor em Itália, fez o doutoramento em Veneza, dedicado a estudos e à investigação em planificação territorial. Com uma larga experiência ao nível do planeamento urbano, trabalhou e trabalha em vários planos direc- tores, câmaras municipais. É professor de Economia Urbana, já com mais de 25 anos de experiência.

Gostava de começar por te agradecer este tempo de conversa e tentar fazer uma visita a estes 25 anos... O que é que terá mudado em Portugal na habitação, na sociedade, na economia? Será que se justificam casas diferentes, habitações diferentes? O que é que te parece?


Primeiro de tudo, acho interessantes estas conversas, obrigam-nos a reflectir e é sempre mais uma ocasião para se dar um pequeno passo à frente.

Eu sou licenciado em Economia e entrei para a Faculdade de Economia em 1969, em pleno momento escaldante da chamada Primavera Marcelista. Entrei exactamente em cima das eleições de 1969. Foi um momento importante para mim, para as minhas primeiras reflexões sobre o que era Portugal nessa altura. Depois, entrei para a Escola no início de 1978... Completam-se 25 anos, e digamos que entrei vindo do SAAL (Serviço Ambulatório de Apoio Local), que foi um percurso importante. Depois por aqui andei com algumas saídas, um pouco sempre com a ideia de que aqui dentro é muito bom, mas para se perceber que é bom, é preciso de vez em quando sair... Ou seja, foi fundamental para mim, quando em 1968 o meu pai me levou a Paris...

Depois eu tentei fazer isso com os meus filhos e continuo a tentar fazer.

Acho que é importante ter esta noção da relatividade, da proporção, porque Portugal é um país que vive muito fechado sobre si. O meu pai sempre dizia... Portugal velho – como se dizia na altura, republicano – que a frase máxima do Salazar era: “Nosso Senhor tenha pena dos ricos e os pobrezinhos coitadinhos lá vão passando com qualquer coisa”. Evidentemente que o problema da habitação andava exactamente em torno disso.

Obviamente que me lembro das condições, até porque era muito solicitado a ver isso, um pouco por questões do ambiente familiar. Mas era muito solicitado a ver as condições inacreditáveis em que eram concebidos todos os espaços de habitar, para as pessoas que não podiam de alguma forma interagir com a capacidade de projecto. Era o mínimo. Portugal viveu sempre dentro deste mínimo.

Nos anos 50/60, era preciso poupar e evidentemente que a habitação reflectiu muito isso nos dois ou três ambientes que eu conheço melhor. A Ribeira dessa época. Aliás, andei clandestinamente a trabalhar com a ODPS (Obra Diocesana de Promoção Social) ainda antes do 25 de Abril, curiosamente na Sé, a fazer relatórios sobre o estado de saúde das pessoas que viviam nos bairros camarários... Portanto, pude visitar e aperceber-me da situação existente no Porto. Depois em alguns outros sítios, por exemplo, em Tortosendo, onde havia as casas dos pobres, que era outra coisa que sempre me chocou profundamente. Porque as casas dos pobres, que é uma iniciativa mais ou menos diocesana, paroquial, uma coisa que anda entre a caridade Sérgio Ramalho, José Carlos Cruz, Rui Ramos, João Paulo Cardielos, Nuno Lacerda Lopes, João Almeida e o padre, eram atribuídas depois às pessoas que se comportavam bem e eram construídas com restos, com as dádivas de materiais soltos. Sobravam dois baldes de tinta e dez tijolos e entregavam para se ajudar a fazer uma casa.

Mais recentemente voltei a pegar nisso, cheguei a fazer um trabalho de investigação sobre isso e realmente eram situações dramáticas, que ainda hoje são visíveis, da condição de habitar. Quer dizer, a condição de habitar, a concepção geral da forma, era imposta para um modelo que era o modelo do pobrezinho, do tipo que com qualquer coisa arranja-se, desde que tenha um tecto. Depois lá dentro, ele arranja-se!”